Camponesas latino-americanas doam cabelos às vítimas de escalpelamento da Amazônia

30 de mayo de 2015

foto3.jpgAs mulheres ribeirinhas vítimas de escalpelamento vão receber, em breve, dezenas de chumaços de cabelos doados por camponesas e camponeses latino-americanos. O gesto de solidariedade aconteceu durante o VI Congresso Latino-americano de Organizações do Campo – CLOC, realizado na Argentina, de 10 a 17 de Abril. Os fios foram entregues à deputada federal Janete Capiberibe (PSB/AP) por um grupo de mulheres representando o Movimento das Mulheres Camponesas do Brasil, a Via Campesina e o CLOC. O material será usado na confecção de perucas.

Rosangela Piovizani, do Movimento das Mulheres Camponesas, explica que o gesto pretende incentivar a solidariedade entre as pessoas e entre os povos. Ela própria cortou seus cabelos para doá-los e incentivou que dezenas de mulheres fizessem o mesmo, em 2013, durante o I Encontro das Mulheres Camponesas do Brasil. Agora, incentivou o gesto solidário para toda a América Latina.

“Foi um belo ato, porque traz a solidariedade internacionalista. Solidariedade que não se dá somente nos fatos duros das lutas pela terra e para salvar o planeta da ganância capitalista. Solidariedade que se faz símbolo no desejo de que condições sejam dadas aos povos em todas as situações, até na navegação segura pelos rios e águas do Brasil. O desejo da entrega dos cabelos é o de que haja responsabilidades compartilhadas e que se recuperem autoestimas”, disseram. Rosângela, Iridiani Seibert, Adriana Dantas e Rita Zanotto entregaram o símbolo da solidariedade e as bandeiras dos movimentos campesinos à deputada Janete.

Deolinda Carrizo, do Movimiento Nacional Campesino e Indígena – MNCI, da Argentina, foi uma das que se solidarizaram. Declarou, naquele dia: “O corte de seu cabelo, que culturalmente, desde sua avó e mãe, tem que ser longo, representa a dominação e opressão do sistema patriarcal e machista sobre a vida e o corpo das mulheres. Que este gesto de solidariedade sirva para resgatar o sorriso no rosto das mulheres que sofrem com esta injustiça”.

Algumas doações trazem significativas histórias de vida, como a de outra camponesa argentina. Com o filho doente, ela prometera cortar seus cabelos caso ele se curasse. Há 15 anos, desde a morte do filho, os cabelos da mulher ficaram intocados. Solidária às mulheres vítimas de acidentes ribeirinhos com escalpelamentos na Amazônia, encontrou motivo suficiente para cortá-los e fazer uma homenagem póstuma ao filho que se foi.

“É um gesto enorme de doação. Elas doam uma parte sua para completar a dignidade e a autoestima de outra pessoa. É um desapego muito grande para tornar melhor a vida do outro, que nem conhece pessoalmente. O gesto se torna ainda maior por que, pelas mulheres camponesas do Brasil, o debate e o gesto de doação, de solidariedade, ganhou a América Latina inteira”, afirma a deputada Janete, apoiadora do extrativismo sustentável e da produção orgânica de alimentos pelas mulheres camponesas e da floresta.

A socialista amapaense tirou da invisibilidade o problema das mulheres vítimas de escalpelamento quando apresentou, a pedido delas, um projeto de Lei que obriga a cobertura do volante e do eixo do motor dos barcos ribeirinhos. São essas peças descobertas que causam o acidente com deformações graves quando enroscam no cabelo e os arrancam com o couro cabeludo. É a Lei 11.970/2009.

O VI Congresso Latino-americano de Organizações do Campo, reuniu lideranças camponesas da América Latina e do Caribe, de 10 a 17 de Abril, na Argentina. Em ato das mulheres camponesas do Brasil, conheceram o drama das mulheres ribeirinhas vítimas de escalpelamento na Amazônia. Ao final, levaram consigo o desafio de aprimorar a segurança na navegação e em outras atividades de risco e de estender o gesto de solidariedade a outros lugares da América Latina e outras pessoas que precisam da demonstração humana de empatia, doação e desapego.

A deputada Janete Capiberibe realizará, no Amapá, em Julho, um ato para entregar os cabelos das mulheres e homens camponeses latino-americanos às vítimas de escalpelamento da Amazônia.

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