V Congresso da CLOC inicia com a presença de presidentes da America Latina

13/10/2010

nota_bruna_2Cerca de mil delegados e delegadas, representantes de 84 organizações pertencentes a 18 países da America Latina, lotaram o Ginásio da Universidade Central do Equador, durante a inauguração do V Congresso da Coordenação Latinoamericana de Organizações do Campo (CLOC), que aconteceu neste dia 12.

Palavras de ordem, bandeiras, lenços e canções cobriram o espaço do Ginásio e anunciaram a chegada dos dois presidentes da América Latina, que apresentaram suas saudações e ratificaram o compromisso de seus governos para responder as demandas das lutas campesinas, indígenas e afrodescendentes do continente. 

No início da noite, em meio aos acordes da canção “Pátria –um hino patriótico do equador” se deu a aparição do Presidente do equador Rafael Correa, acompanhado do presidente da República da Bolívia e membro fundador da CLOC, companheiro Evo Morales Ayma. Os dois presidentes receberam declarações de afeto e respaldo por parte dos delegados e delegadas do V Congresso da CLOC. Sem dúvida, Morales foi o presidente mais aplaudido devido a sua condição de militante orgânico da CLOC.

Depois da tradicional mística, que nesta ocasião representou a luta entre as aspirações populares e os mecanismos imperialistas com que se escravizam os povos da América, foram cantados vibrantes hinos tal como “o povo unido” e “a internacional”, que os presentes cantaram de pé, visivelmente emocionados com o espetáculo das bandeiras de todos os países, cobrindo por completo o cenário do ginásio. 

As saudações do congresso ficaram a cargo dos anfitriões e delegados das organizações regionais e internacionais. A comissão política estava representada pelos companheiros  Luis Andrango, secretário operativo da CLOC, Rafael Alegria, da coordenação da Via Campesina(VC), Maria del Carmen Barroso da ANAP – Cuba, Itelvina Mazioli do MST, Brasil, Alberto Gómez do México e Francisco Rodrigues da ANAMURI, Chile.

 

Unidade na luta pela transformação                    

Yudhvir Singh, coordenador da Via Campesina mundial, assinalou que os povos reunidos na Via Campesina “estão lutando contra o capitalismo, contra a OMC e o FMI. Nossa causa é comum. Estamos lutando pela terra, pelos bosques, pelos recursos naturais, pela água e pelos direitos das mulheres. Estamos lutando pelos pescadores e pelos povos indígenas. Nossa causa é comum, e nosso inimigo também. Lutando todos juntos nada nos vencerá.”    

O coordenador da Via Campesina finalizou sua intervenção saudando a luta e a presença das mulheres rurais, que representam a base da agricultura e, portanto, cumprem um papel essencial para o futuro de milhões de pessoas em todo o mundo.

Por sua vez, o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, saudou a realização do encontro no equador e se referiu aos difíceis momentos vividos por essa nação andina desde o ultimo 30 de setembro, quando um motim policial coligado com os setores de ultra direita tentaram gerar um processo de desestabilização democrática.  “Temos que banir para sempre essas práticas que são, senão uma imposição de dominação para nossos povos. Tentaram fazer o mesmo com o companheiro Chávez, na Venezuela, com Evo Morales, e com o companheiro Correa, e acredito que isso demonstra a capacidade de impunidade em todo o continente. Pela primeira vez no continente, todos os presidentes se uniram para dizer não ao golpe, o que representa um avanço significativo na consolidação dos processos democráticos na América Latina”.

Enviaram suas saudações ao V Congresso, em nome da Assembléia Nacional do equador (Poder legislativo do Estado), Silvia Salgado, deputada socialista, e Fernando Cordero, presidente da Assembléia Nacional, quem entregou à secretaria operativa da CLOC a resolução que cumprimenta e compromete o apoio legislativo da Assembléia Nacional às decisões tomadas durante o V Congresso da CLOC. 

 

Seguiremos cultivando a esperança, cultivando a critica e mantendo a ira diante da injustiça

O secretário operativo da CLOC, Luis Andrago, presidente da FENOCIN – Equador, saudou a todos os representantes e convidados do evento “a partir do Equador, terra de lutadores e lutadoras, povo herdeiro de profundas lutas sociais e, a partir da America Latina, mãe das raízes, continente da esperança, terra de frutos, de Martí, Mariátegui, Bartolina e outros lutadores e lutadoras dos povos mestiços a quem hoje rendemos homenagens aqui, e com quem abrimos este V Congresso da CLOC.

Luis Andrango saudou a presença dos presidentes das repúblicas do Equador e da Bolívia apontando: “o companheiro Evo Morales é mais um militante da CLOC  e um símbolo universal de nossas lutas e hoje Presidente da República da Bolívia. Vivemos momentos em que se faz necessária a luta organizada para derrubar o modelo neoliberal. Vivemos também uma profunda crise da humanidade. Há um claro projeto de dominação e desapropriação de nossos bens naturais. As vitórias eleitorais tem significado o início da derrota das elites”.

O secretário operativo da CLOC destacou também a necessidade de manter a independência e autonomia dos governos, e enfatizou que os governos devem dar passos necessários para uma verdadeira transformação.  Andrango acrescentou “necessitamos fortalecer o processo de unidade nos países, nos continentes e no mundo. Um dos espaços será a ALBA, carta da mãe terra. Ter um processo de reforma agrária integral para instalar o Sumak kawsay  de nossos povos. Sem feminismo não há socialismo. É necessário enfrentar a lógica perversa do patriarcado  e construir novas formas de relação baseadas na reciprocidade e na justiça. Seguiremos cultivando a esperança, incentivando a crítica, e mantendo a ira diante da injustiça.

 

A CLOC resiste e luta

Uma das dirigentes camponesas e também fundadora da CLOC, Francisca Rodrigues, CLOC-VC-Chile, manifestou sua emoção pela presença dos presidentes na inauguração de um congresso da CLOC depois de 16 anos de sua criação, acrescentando que isso é “o resultado da luta de nosso povos. Fomos nós que lhes demos a tarefa de dirigir nosso continente”.

Francisco Rodrigues disse ainda que valoriza a resposta do companheiro Evo Morales diante da convocatória que o fez estar presente neste V Congreso da CLOC, acrescentando que “hoje está de serviço, mas amanhã o receberemos novamente para estar na luta. Também queremos dizer a nossos presidentes que, depois de um ano de trabalho, depois de mil congressos em todo o continente, aqui estão os camponeses, os indígenas, os/as pescadoras da serra, a selva. Nesse momento damos um passo importante no nosso debate ao afirmar que sem feminismo não há socialismo, e recorremos aos ensinamentos da história, e às lutadoras”.

Evo Morales  responde a convocatória da CLOC

Em meio a gritos e palavras de ordem de apoio do povo da Bolívia, o Presidente Evo Morales, fundador da CLOC, manifestou sua alegria de estar presente nesse histórico encontro, e deu sua saudação revolucionária a todos os delegados e delegadas da América Latina, recordando que a Coordenação nasce no calor da campanha dos 500 anos de resistência indígena e popular. Em uma análise sobre o contexto latinoamericano, assinalou que “estamos vendo na America Latina que a direita entreguista, traidora, sobrevive. Venho primeiro pelo convite de vocês, mas também venho expressar meu respeito, admiração, solidariedade com meu irmão Presidente Rafael Correa. Ao governo do Equador e à revolução cidadã do equador, e às forcas sociais do campo e da cidade, defensores dos direitos humanos e da democracia.

O presidente da Bolívia também aproveitou para fazer uma prestação de contas política do seu trabalho a frente de seu país, assinalando que está feliz com a nova lei promulgada contra a discriminação, acrescentando “temos outra responsabilidade, que é, para além das reivindicações –soberania alimentar, reforma agrária –poder comentar como avançamos em nossa revolução agrária, como fortalecer a produção. Temos uma responsabilidade como movimento. Como salvar a humanidade é outra tarefa. Nosso grito de guerra pátria ou morte passa a ser planeta ou morte. Temos que salvar o plante para salvar a humanidade”.

Evo Morales sustenta que esses eventos devem dar origem a novas ideias, manifestando finalmente que está orgulhoso de pertencer a CLOC, e faz um chamado para continuar construindo novas políticas para o bem das bases e da humanidade, finalizando “quero que me convoquem, aqui estarei. Não quero receber convites. Quero que continuem me ensinando”.

 

Radicalizemos a revolução cidadã.      

O presidente do equador, Rafael Correa, agradeceu o convite para participar do V Congresso da CLOC, e saudou a presença de todas as representações presentes, dizendo que o V Congresso acontece em um momento histórico da humanidade, acrescentando que a atual conjuntura não precisa de uma reforma agrária, e sim de uma revolução agrária.

Rafael Correa se desculpou com os camponeses, “temos feito muito, mas não o todo necessário. Não tem sido fácil, lutamos contra a crise política e econômica. Quase tivemos um golpe de estado. E para quem acredita que isso é uma farsa, aí esta o carro presidencial com as marcas de balas. Depois da tentativa de golpe, reunimos a equipe de governo e radicalizamos a revolução cidadã. Não tem sido fácil, mas estamos no caminho de uma revolução agrária”.

Correa expressou a necessidade de defender a soberania nacional e alimentar, e chamou a seguir a luta por uma sociedade igualitária, inclusiva e solidária. Também disse que conta com os camponeses e indígenas nesta luta, e que o movimento campesino e indígena conta com seu governo, que está baseado na revolução cidadã.

Com a intervenção final do presidente do equador, se deu por inaugurado o V Congresso da CLOC, onde se debaterão temas diversos e que afetam o/as camponeses/as, indígenas e afrodescendentes do continente. O debate, concentrado nos acordos tomados nos últimos congressos e também nos acordos de Cochabamba consolidará esse processo de poder inclusivo e popular, onde se propõe fortalecer as organizações locais como alternativa ao capital.  Aqui estão os de ontem, os de hoje e os de amanhã. Também estão presentes os filhos daqueles que hoje seguem em nossa memória. A continuidade da vida está garantida. A luta contra o saque do capital e do império, pela terra e pela soberania de nossos povos e, a plena consciência de que sem feminismo não há socialismo, está de pé. A America Latina segue avançando.

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